Laguardia,
em primeiro lugar, obrigado pelo comentário.
Parece que você é de Belo Horizonte, onde operava a Telemig. Como eu, você também deva ter sido "cliente" da Telemig na era "pré-privatização". Ou, talvez você morasse no Rio de Janeiro nessa época, onde realmente o serviço era sofrível. Acho desnecessário e cômico eu ter que "provar" minha senilidade (normalmente, tento provar a minha jovialidade). Não é porque tenho uma opinião diferente, que meu ponto de vista é infantil ou ingênuo. Vamos explicar as coisas.
Minha insatisfação com a venda da Telemig é muito clara. Caso você tenha morado no Rio ou outro estado nessa época, devo avisar: na era "pré-privatização", a Telemig tinha um serviço de primeira. Juntamente com a Cemig, a Telemig dispunha de (investia em) tecnologia de ponta para a época. Digo isso, porque acompanhei mais ou menos de perto (pelo que você disse, você também. Relembre comigo alguns aspectos da telefonia "estatal" em MG). Hoje, a Cemig - que continuou majoritariamente sob comando do Estado, por mérito do Itamar -, como qualquer empresa estatal ou de economia mista bem administrada, cumpre seu papel e detém bons serviços e boa reputação. Só pra exemplificar, antes da privatização, o telefone "dava linha" e executava a chamada instantaneamente, inclusive interubana (por isso conclui que você não foi cliente da Telemig). Logo após a privatização, porém, estranhamente, esperávamos segundos ou simplesmente as ligações não completavam, mesmo as locais. Apenas algum tempo depois é que tudo voltou como era antes. Outro bom exemplo é que se ligava de, por exemplo, Ouro Preto a Ipatinga como chamada local, ou seja, cidades abrangidas pelas mesmas estações pagavam o pulso local. E esse pulso, diga-se de passagem, era de quatro em quatro minutos. Seu valor correspondia a poucos centavos de hoje. Para completar, se precisei reclamar de algum serviço da antiga Telemig, não me recordo de ter sido tratado com desdém e ignorância. Logo antes da privatização, ainda, MG era um dos primeiros estados a disponibilizar o uso de celulares em larga escala. A Telemig já tinha planos de uso noturno, o "CeLUAR". Para obter uma linha qualquer, pelo menos no meu caso, era preciso comprar ações da empresa (isso, de fato impedia boa parte da população em ter uma linha doméstica), o que significava participação nos lucros, quando havia (e não uma mensalidade exorbitante, como você diz).
Como qualquer novidade, realmente, não era para todos. No entanto, acredito eu, a democratização das telecomunicações, a exemplo de qualquer tecnologia, era uma estrada de uma mão só, haja vista a informática; a TV a cabo ou satélite; bens de consumo duráveis; o atual alcance das linhas de transmissão da própria Cemig; a quantidade de cidades que com menos de 100mil habitantes que já dipõem de ETAs e ETEs, seja da Copasa, seja dos SAAE e uma infinidade de casos de serviços que eram escassos no fim da década de 1990 e hoje estão ao alcance de uma parcela muito maior da população. Assim, o amplo acesso ao telefone já se anunciava um caminho sem volta, com ou sem privatização.
Sem falar que os anos que precederam as privatizações foram de total desmantelamento de várias empresas estatais e de economia mista (inclusive a CVRD), seguindo à risca a chamada "cartilha neoliberal", como que "preparando o terreno" para justificar as privatizações. Qualquer especulação que você ou eu façamos da alegada precariedade anterior às privatizações deve levar isso em consideração.
Devo dizer também, para evidenciar a competência do serviço da antiga Telemig, que, assim que a Telemar foi vendida, houve uma debandada geral de engenheiros da ex-Telemig para a Telemar do RJ, consoante o serviço no RJ ter melhorado substancialmente ao mesmo tempo que o servço em MG, no princípio teve uma sensível piora, como eu disse acima.
Eu ainda poderia citar a Embratel, com seu pioneirismo dos sistemas Multiplex e Radiovisibilidade, ainda no tempo do Geisel (!). Mas já é me delongar demais no assunto.
Hoje, cliente da Oi, ex-Telemar, ex-"linha-fixa"-da-Telemig, ao contrário dantes, insisto que só tenho a lamentar quanto aos herdeiros diretos da privatização: os péssimos serviços, preços e respeito ao consumidor - pelo menos, se comparados aos da antiga Telemig. Se as Agências Reguladoras (outra invenção de FHC) não cumprem bem o seu papel, também é algo a se discutir. Mas desconfio que lobistas e corruptores que não podiam existir antes da privatização tenham a ver com isso.
Sobre a Vale, não vou aprofundar muito no assunto, porque não é mesmo a minha especialidade. Acabei de reler o comentário no Briguilino. Não me lembrava mais daquilo. Porém, podemos prosseguir o assunto. Se não me engano, a Previ é uma empresa (ou fundação?) previdenciária de direito privado, que praticamente doou parte do dinheiro para um certo amigo do PSDB comprar a Vale, a revelia de seus associados - funcionários do BB, e não de "propriedade" do BB (se quiser, você pode elucidar essa minha ignorância assumida). De qualquer forma, você tentou desconstruir um argumento que não usei. Não me baseio nisso para criticar a privatização da Vale. Minha critica foi a perda do controle efetivo do governo a uma fração do valor real, independente de quem tenha sido o comprador. Além de ter sido economicamente um mau negócio, essa perda do controle, na minha opinião, representa a perda do uso social da empresa e um possível desinteresse à questão ambiental. Essa é a crítica que tenho feito à privatização da Vale. Tenho outras, ainda não toquei no assunto internet afora. Um dia posso voltar a esse tema.
Agradeço as informações e alguns outros aspectos da privatização da Vale e outros assuntos, que eu desconhecia. Mas ressalto uma correção: se tenho uma visão que tende à (verdadeira) social-democracia e a um certo esquerdismo, isso está muito longe de eu ser petista ou lulista, muito menos fanático. Se assim pareço, pode ser por causa da proximidade das eleição, quando nossos sentimentos políticos começam a exarcebar. Convido-o a ler outros comentários meus sobre o assunto. Tenho certeza que você concordará que formou uma impressão precipitada e radicalizada sobre mim.
Seu comentário foi muito bem-vindo no Palpite do Dia e a partir de agora, vou esperar outros. Mas vamos manter uma padrão suportável de civilidade e respeito à pluralidade de opiniões (essencial à democracia, que você tanto preza) nas discussões, está bem?
Um abraço.
Zé Cabudo